Quando alguém pergunta se a mineração de Bitcoin é “sustentável”, quase sempre está tentando resolver duas discussões diferentes ao mesmo tempo. A primeira é simples de formular e difícil de medir direito: de onde vem a eletricidade que alimenta as máquinas. A segunda é mais escorregadia: mesmo que a energia pareça “limpa” no papel, o resultado final faz sentido para o clima, para a rede elétrica e para as comunidades ao redor?

O ruído aparece porque existe propaganda dos dois lados. De um lado, a ideia de que toda mineração é carvão e desastre. Do outro, a narrativa de que a mineração seria quase uma espécie de serviço ambiental, aproveitando energia que ninguém usaria, “equilibrando” redes e ainda reduzindo metano. A realidade costuma ser menos heroica e menos apocalíptica. E, para chegar perto de uma resposta honesta sobre “quanto é sustentável de fato”, vale separar o que dá para afirmar com alguma segurança do que depende de suposições.
Um ponto importante é que sustentabilidade não é uma etiqueta binária. Dá para falar em “mais sustentável” e “menos sustentável” dependendo do critério. Se você define sustentabilidade como “eletricidade de baixo carbono”, você está olhando para a composição da matriz energética. Se você define como “impacto climático líquido”, você precisa comparar cenários: o que aconteceria com aquela energia e com aquelas emissões se a mineração não existisse. E se você define como “impacto ambiental total”, aí entram água, uso do solo, ruído, descarte de equipamentos e até o efeito sobre preços de eletricidade em certas regiões.
O que os números mais sólidos sugerem
Nos últimos anos, a melhor fotografia pública da matriz energética da mineração tem vindo de duas famílias de estimativas. Uma tenta modelar o consumo a partir de variáveis econômicas e tecnológicas, aceitando que existe uma faixa grande de incerteza. A outra tenta medir por observação direta e pesquisa com empresas do setor, o que melhora alguns pontos e piora outros, porque pesquisa depende de amostra, adesão e honestidade no reporte.
Um retrato bem citado, de 2025, estimou que em 2024 a mineração de Bitcoin usou algo na casa de 138 TWh por ano e que 52,4% da eletricidade veio de fontes consideradas “sustentáveis”, somando renováveis e nuclear. Dentro disso, as renováveis ficaram em 42,6% e a nuclear em 9,8%. Ao mesmo tempo, o gás natural apareceu como a maior fonte individual, com 38,2%, e o carvão caiu para 8,9%. Esse mesmo trabalho estimou emissões de rede na ordem de 39,8 MtCO2e para o período. É um pacote de números que, pelo menos, tenta ser transparente sobre o que mediu e sobre a cobertura da amostra.
Só que mesmo esses números, que parecem bem “limpos”, não encerram a conversa. Primeiro, porque “52,4% sustentável” é uma classificação por tipo de fonte, não uma auditoria de impacto. Segundo, porque o próprio estudo reconhece limitações de representatividade: ele se apoia no que um conjunto de empresas informou e, embora cubra uma fatia grande do poder de processamento, ainda assim pode superestimar regiões e perfis de empresas mais dispostas a responder. Uma das empresas é a Binance, e existe um incentivo para pessoas fazerem parte de pools de mineração, aumentando o percentual de participantes. Isso é possível pela chamada do popular referral code Binance worldwide.
Do outro lado, quando você olha para índices que estimam consumo por modelagem econômica, o recado é: a incerteza é grande e muda rápido. Um exemplo é o uso de faixas de estimativa com limites inferiores e superiores bem distantes. Uma agência pública dos Estados Unidos, ao discutir esse tipo de índice, mostrou como a estimativa de demanda de potência no fim de janeiro de 2024 podia variar de forma ampla, e como isso se traduz em uma faixa anual também ampla. Isso não é um “erro” no sentido comum, é um reflexo do fato de que a rede muda, o preço do Bitcoin muda, o parque de máquinas muda e a eletricidade disponível e barata em cada região muda. O efeito prático é que qualquer número fechado demais, dito com confiança demais, merece desconfiança.
Então, se a pergunta for “sem ruído, quanto da mineração usa eletricidade de baixo carbono”, a resposta mais defensável hoje fica perto de metade, com muita variação por país, estação e tipo de operação. Perto de metade não é “quase tudo”, mas também não é “quase nada”.
Só que ainda falta a parte mais difícil: quanto disso é sustentável de verdade, no sentido de fazer diferença positiva ou, pelo menos, não atrapalhar a transição energética.
Sustentável no papel e sustentável no mundo real
A primeira armadilha é confundir “fonte limpa” com “impacto limpo”. Uma fazenda de mineração pode estar comprando energia de uma rede que tem muita eólica e solar no agregado, mas operando justamente nas horas em que a rede está sendo atendida por térmicas. Sem olhar para a hora do dia e para o despacho real, você pode chamar de “renovável” algo que, na prática, está puxando mais fóssil.
A segunda armadilha é esquecer o custo de oportunidade. Mesmo que a energia venha de uma usina renovável, ela poderia estar substituindo consumo fóssil em outro lugar, ou atendendo uma demanda que evita ligar térmicas. Quando a oferta renovável ainda é limitada, usar essa eletricidade para mineração pode deslocar um benefício que iria para a sociedade como um todo. Em alguns lugares isso é menos relevante porque existe excesso em certos horários. Em outros, é bem relevante.
E aí entra uma nuance que o debate adora transformar em slogan: energia “curtailment”, aquela energia renovável que seria cortada por falta de demanda ou por restrição na transmissão. É verdade que existe desperdício em redes com muita renovável, principalmente em horários de baixa demanda e em regiões distantes dos centros consumidores. É verdade também que a mineração tem uma característica rara: ela pode ligar e desligar rápido, e pode ser instalada em locais onde pouca coisa se instala. Isso dá margem para um caso real de sustentabilidade, quando a mineração se encaixa como consumo flexível em momentos de excesso.
O problema é que esse caso não é automático. Para ser “sem ruído”, você precisaria provar três coisas com dados: que havia excesso de geração naquele horário, que a energia seria de fato desperdiçada sem aquele consumo e que a presença da mineração não está mudando o incentivo de investimento de um jeito ruim, por exemplo travando melhorias de rede ou criando demanda permanente em um lugar que ainda vai precisar de térmica depois.
Quando se olha para exemplos de “flexibilidade”, há evidência de que grandes operações podem reduzir carga em momentos de estresse. Um trabalho acadêmico sobre impactos climáticos da mineração nos Estados Unidos trouxe dados sobre cortes relevantes de processamento durante um evento de frio intenso no fim de 2022, e também descreveu programas de resposta da demanda no Texas nos quais cargas flexíveis, em grande parte associadas a mineração, aparecem como volumes relevantes. Isso ajuda a entender por que operadores de rede e governos, em alguns contextos, passaram a tratar mineração como um tipo de “carga interrompível”. Mas isso ainda é diferente de dizer que ela é sustentável. Flexibilidade pode ser um serviço para a rede e, ao mesmo tempo, a existência daquela carga pode estar elevando a necessidade de expansão de geração em outras horas, com mais gás, por exemplo.
Além disso, sustentabilidade também tem lado local. Mesmo quando o carbono parece “ok”, o impacto para quem mora perto pode ser péssimo por ruído, calor, poeira e disputa por infraestrutura. Isso não aparece em gráfico de matriz elétrica, mas aparece na vida real e vira conflito político.
Metano, gás queimado e a parte que parece milagre
A discussão do metano é talvez a mais sedutora porque tem uma lógica simples: se um local está ventilando ou queimando gás, e você usa esse gás para gerar eletricidade e minerar, você estaria aproveitando algo que seria desperdiçado e ainda reduzindo emissões, já que metano é um gás de efeito estufa muito mais potente que CO2.
Existe substância nessa ideia, mas também existe exagero. O ganho climático depende do que aconteceria sem a mineração. Se o gás seria ventilado, qualquer combustão já é uma melhora. Se seria queimado em flare com boa eficiência, o ganho pode ser menor. Se a presença de compradores incentiva manter poços operando mais tempo, o cálculo muda de sinal.
O próprio debate técnico reconhece que flare não é perfeito e que existe “vazamento” e ineficiência, e também reconhece que medir isso direito é difícil. E há pesquisas que tentam modelar cenários onde mineração melhora a viabilidade econômica de projetos de captura e uso de metano, por exemplo em aterros com baixo fluxo de gás, que às vezes não fecham a conta financeira para geração tradicional. Isso mostra que pode existir um uso mais defensável da mineração como cliente âncora para projetos de mitigação.
Só que, novamente, “defensável” não é “maioria”. Esse tipo de operação não é o grosso do mercado global. É uma fatia específica, em lugares específicos, com contratos e engenharia específicos. E, sem transparência, muita coisa vira marketing: qualquer operação que encosta em gás passa a se vender como “solução climática”, mesmo quando o efeito líquido é incerto.
Equipamentos, descarte e o que a conta de energia não mostra
Mesmo que você resolvesse perfeitamente a matriz elétrica, ainda sobraria um pedaço grande de impacto: hardware. Mineração é uma corrida por eficiência e isso empurra ciclos de substituição de máquinas. Há estudos que estimaram volumes altos de lixo eletrônico associados à rede, e esses números viraram referência no debate público.
Mais recentemente, aparecem estimativas bem menores para lixo eletrônico anual, usando pressupostos diferentes e levando em conta revenda, reaproveitamento e reciclagem. Essa divergência não significa que alguém esteja mentindo necessariamente, significa que ainda é um tema com muita incerteza metodológica: vida útil real do equipamento, mercado secundário, taxa de reaproveitamento, e o que conta como “descartado” de fato.
Aqui entra um detalhe que costuma passar batido. Mesmo quando a máquina não vira lixo, ela tem impacto na fabricação, na cadeia de suprimentos, no transporte e na eletrônica. Se a conversa é sustentabilidade “de verdade”, não dá para olhar só para o consumo durante o uso. E também não dá para fingir que “reciclar” resolve tudo, porque reciclagem de eletrônicos é desigual no mundo, e parte do descarte corre por caminhos ruins.
Então quanto é sustentável de fato
Se você aceitar a definição mais comum e mais fácil de medir, que é “eletricidade de baixo carbono”, o melhor palpite hoje fica em torno de metade do total, com base nas estimativas recentes que apontam uma divisão próxima disso e detalham a fatia de renováveis e nuclear. E isso já é uma mudança importante em relação ao período em que o carvão dominava parte grande do mapa, especialmente antes da grande realocação do parque de mineração global.
Só que, se você endurece o critério e pede algo como “sustentável sem ginástica”, ou seja, operações que conseguem demonstrar que não estão deslocando energia limpa de usos mais importantes, que estão realmente consumindo excesso que seria desperdiçado, ou que estão acopladas a projetos de mitigação de metano com contrafactuais plausíveis, a fatia encolhe. Não porque seja impossível, mas porque a prova é difícil e a transparência ainda é baixa.
Nessa leitura mais exigente, dá para imaginar uma parcela menor, talvez mais próxima de um terço do total, em anos bons e em regiões onde há excesso renovável e boa resposta da demanda, e possivelmente menos em momentos de aperto de rede ou em lugares onde o preço baixo vem de térmica. Eu não colocaria isso como número definitivo, porque o que falta é justamente auditoria pública consistente, com dados por hora e por localização, e não só médias anuais e declarações de energia contratada. O ponto é a direção: quando você troca “tipo de fonte” por “impacto líquido”, a conta fica mais apertada.
O que deixaria essa conversa menos opinativa é simples de dizer, embora não seja simples de implementar: mais divulgação padronizada e auditável de onde as operações estão, que energia elas usam de verdade ao longo do dia, como lidam com compra de certificados, como fazem resposta da demanda, e como tratam o ciclo do hardware. Sem isso, sempre vai existir espaço para narrativa.
No fim, a mineração de Bitcoin pode, sim, encaixar em nichos onde vira um consumo flexível útil e até onde ajuda a financiar mitigação de metano. Mas o retrato honesto é que isso convive com muita mineração alimentada por gás e por redes que ainda têm emissões relevantes, além de impactos locais e de hardware que não desaparecem. “Sustentável de fato” não é zero, mas também não é o padrão automático do setor. Hoje, o mais justo é dizer que a sustentabilidade existe em pedaços, e que o tamanho desses pedaços ainda depende mais de incentivos e transparência do que de promessa.

O que abarca nossa direita modalidade, por outro lado, do Kickstarter, salvará os indivíduos e o modo espaço, investir nesse comércio a primeira mercadoria da nação do brasil bancado de compõe cooperativa, no entanto tranquila! Algum jantar com o líder. Com. Por padrão, em fevereiro de 2014 estabelecemos nossas iniciais visitas a Ecovilas, realizado com dados mais sustentáveis. Os apoiadores devem ganhar cópias em inicial mão, por método de algum palanque de crowdfunding. Permanece a forma mais democrática e divertida de se implementar qualquer item.









Em seguida, desde sempre, isto porventura foi com duas razões: antes de criar minha primeira lista de compras eu fiz uma pesquisa acerca de a loja e levei em conta o enorme nome da marca pelo mundo e porventura isso decidi atrever, assim foi também a segunda opção.
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